Sustentabilidade em bens de consumo: guia de reporte ESG

Alba Selva Ortiz · · 7 min de leitura
Sustentabilidade em bens de consumo: guia de reporte ESG

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Por que a sustentabilidade é importante para as empresas de bens de consumo

Os bens de consumo estão na interseção de cadeias de abastecimento globais, processos de fabrico intensivos em recursos e milhares de milhões de decisões de compra diárias. Desde produtos domésticos e cuidados pessoais até eletrónica e vestuário, estas empresas enfrentam uma pressão crescente por parte de reguladores, investidores e consumidores para demonstrar progressos ambientais mensuráveis. O setor é responsável por uma parcela significativa das emissões globais de gases com efeito de estufa, em grande parte devido a cadeias de abastecimento complexas e multi-nível e a processos de produção intensivos em energia.

Ao abrigo da Diretiva de Relatório de Sustentabilidade Corporativa (CSRD), as empresas de bens de consumo que operam ou vendem para a UE devem agora divulgar dados ambientais, sociais e de governação detalhados, seguindo as Normas Europeias de Relatório de Sustentabilidade (ESRS). Este não é um exercício voluntário: o incumprimento pode resultar em sanções financeiras, exclusão da contratação pública e danos reputacionais que corroem a confiança dos consumidores.

Para além da regulação, a sustentabilidade tornou-se um fator de diferenciação competitiva. Os consumidores preferem cada vez mais marcas que comprovem as suas alegações ambientais com dados verificados, em vez de slogans de marketing. Os retalhistas estão a reforçar os requisitos para fornecedores, e os investidores institucionais estão a integrar o desempenho ESG nas suas decisões de alocação de capital.

Emissões do ciclo de vida do produto: onde se esconde o carbono

Para as empresas de bens de consumo, compreender as emissões implica examinar cada fase do ciclo de vida do produto: extração de matérias-primas, fabrico, embalagem, distribuição, utilização pelo consumidor e eliminação no fim de vida.

Matérias-primas e aprovisionamento

A cadeia de abastecimento a montante representa tipicamente a maior parcela da pegada de carbono de uma empresa de bens de consumo. As emissões de Âmbito 3 provenientes de bens e serviços adquiridos representam frequentemente entre 70 e 90 por cento do total das emissões. Isto inclui agricultura, mineração, processamento químico e outras atividades extrativas que ocorrem muito antes de um produto chegar ao chão de fábrica.

O acompanhamento destas emissões requer o envolvimento de fornecedores em grande escala. As empresas precisam de dados primários dos fornecedores de primeiro nível e de estimativas credíveis para os níveis mais profundos da cadeia de abastecimento, utilizando bases de dados de fatores de emissão reconhecidas e metodologias de avaliação do ciclo de vida (ACV) alinhadas com a ISO 14067 e a ISO 14040.

Fabrico e processamento

As emissões ao nível da fábrica enquadram-se no Âmbito 1 (combustão direta) e no Âmbito 2 (eletricidade adquirida). Embora sejam mais fáceis de medir do que as emissões da cadeia de abastecimento, exigem ainda uma recolha sistemática de dados em múltiplos locais de produção, frequentemente em países com diferentes misturas energéticas.

As melhorias na eficiência energética, a aquisição de energia renovável e a otimização de processos representam os mecanismos mais diretos para reduzir as emissões de fabrico. Muitas empresas de bens de consumo definiram metas baseadas na ciência (SBTi) que exigem reduções absolutas nas emissões operacionais até 2030.

Embalagem e economia circular (ESRS E5)

A embalagem é um dos desafios de sustentabilidade mais visíveis no setor dos bens de consumo. A norma ESRS E5 (Utilização de recursos e economia circular) exige que as empresas reportem dados quantitativos sobre o peso da embalagem, percentagens de conteúdo reciclado, taxas de reciclabilidade e recuperação de materiais.

O Regulamento da UE sobre Embalagens e Resíduos de Embalagens (PPWR) acrescenta requisitos adicionais, incluindo limiares obrigatórios de conteúdo reciclado e critérios de conceção para reciclagem. As empresas devem acompanhar os dados de embalagem ao nível da referência de produto (SKU) e demonstrar progressos em direção às metas de economia circular.

As estratégias práticas incluem o design de embalagens mais leves, estruturas mono-material que simplificam a reciclagem, sistemas de reabastecimento e reutilização, e maior utilização de materiais reciclados pós-consumo (PCR). Estas alterações reduzem tanto os custos com materiais como o impacto ambiental quando implementadas de forma sistemática.

Distribuição e logística

As emissões de transporte abrangem a logística de saída para retalhistas e armazéns, a entrega de última milha aos consumidores e a logística inversa para devoluções e reciclagem. A otimização de rotas, a transferência modal da estrada para o caminho de ferro e a eletrificação das frotas de entrega são estratégias de redução fundamentais.

Utilização pelo consumidor e fim de vida

Para determinadas categorias de produtos, a fase de utilização domina a pegada do ciclo de vida. Os eletrodomésticos que consomem eletricidade, os produtos de limpeza que requerem água quente e os dispositivos eletrónicos com vários anos de consumo de energia geram emissões significativas durante a fase de utilização. As escolhas de design de produto feitas anos antes da venda determinam estes impactos a jusante.

As emissões no fim de vida dependem da infraestrutura local de gestão de resíduos e do design do produto. Os produtos concebidos para desmontagem, reparação e recuperação de materiais têm uma pegada de fim de vida inferior à dos que são destinados a aterro ou incineração.

Panorama regulatório: CSRD, Taxonomia UE e Passaporte Digital de Produto

As empresas de bens de consumo enfrentam um conjunto convergente de regulamentos da UE que exigem uma gestão de dados coordenada.

CSRD e ESRS

A CSRD exige que as empresas realizem uma avaliação de dupla materialidade, identificando tanto a forma como as questões de sustentabilidade afetam o negócio (materialidade financeira) como a forma como o negócio afeta as pessoas e o ambiente (materialidade de impacto). Para os bens de consumo, os tópicos materiais incluem tipicamente as alterações climáticas (E1), a poluição (E2), a água e os recursos marinhos (E3), a biodiversidade (E4), a economia circular (E5), os trabalhadores da cadeia de valor (S2) e os consumidores e utilizadores finais (S4).

O reporte deve seguir as normas ESRS, ser objeto de garantia externa e ser apresentado em formato digital (XBRL). Em Portugal, a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) é a entidade supervisora da implementação da CSRD para entidades de interesse público.

Alinhamento com a Taxonomia UE

A Taxonomia da UE exige que as empresas divulguem a proporção das suas receitas, despesas de capital e despesas operacionais que se qualifica como ambientalmente sustentável. Para as empresas de bens de consumo, as atividades relevantes incluem o fabrico de tecnologias de baixo carbono, as inovações de embalagem que contribuem para os objetivos de economia circular e as melhorias de eficiência energética nas instalações de produção.

Regulamento de Ecodesign para Produtos Sustentáveis (ESPR) e Passaporte Digital de Produto

O ESPR alarga os requisitos de ecodesign para além dos produtos relacionados com a energia, cobrindo quase todos os bens físicos vendidos na UE. Introduz o Passaporte Digital de Produto (DPP), um conjunto de dados normalizado que acompanha cada produto ao longo do seu ciclo de vida, contendo informações sobre materiais, pegada de carbono, reparabilidade, conteúdo reciclado e instruções de fim de vida.

As empresas de bens de consumo devem preparar-se para os requisitos do DPP, construindo agora a infraestrutura de dados ao nível do produto. Os dados necessários para os DPP sobrepõem-se significativamente com as divulgações da CSRD e da Taxonomia da UE, tornando a gestão integrada de dados essencial.

Estratégias práticas para a sustentabilidade nos bens de consumo

Realizar avaliações do ciclo de vida ao nível do produto

Ir além das pegadas de carbono corporativas para ACVs ao nível do produto. Esta granularidade permite uma melhor tomada de decisões sobre materiais, fornecedores e escolhas de design. Também prepara as empresas para os requisitos do Passaporte Digital de Produto e responde aos pedidos de retalhistas para dados ambientais específicos do produto.

A plataforma de acompanhamento da pegada de carbono da Dcycle suporta o cálculo de emissões ao nível do produto seguindo as normas ISO 14067 e GHG Protocol, permitindo identificar pontos críticos e acompanhar o progresso de redução em todo o portefólio de produtos.

Envolver os fornecedores sistematicamente

Uma vez que o Âmbito 3 domina a pegada de carbono dos bens de consumo, o envolvimento dos fornecedores não é opcional. Construir um programa estruturado que priorize os fornecedores de maior impacto, solicite dados primários de emissões, forneça orientação metodológica e defina expectativas de sustentabilidade contratuais.

A recolha automatizada de dados da Dcycle liga-se diretamente aos sistemas dos fornecedores e plataformas de aprovisionamento, reduzindo o esforço manual de recolha de dados de Âmbito 3 em centenas ou milhares de fornecedores.

Otimizar a embalagem com dados

Substituir alegações qualitativas de sustentabilidade da embalagem por acompanhamento quantitativo. Medir o peso da embalagem por unidade, a percentagem de conteúdo reciclado, a taxa de reciclabilidade e a taxa de recuperação de materiais em todas as linhas de produtos. Definir metas alinhadas com os limiares do PPWR e os requisitos da ESRS E5.

Integrar o reporte entre frameworks

As empresas de bens de consumo reportam frequentemente para múltiplas frameworks simultaneamente: CSRD/ESRS, GHG Protocol, CDP, Taxonomia UE e normas setoriais. Uma abordagem de reporte integrada evita a duplicação e garante a consistência. A capacidade de reporte multi-framework da Dcycle permite às empresas introduzir dados uma vez e gerar outputs para múltiplas frameworks a partir de uma única fonte de verdade.

Preparar-se para o Passaporte Digital de Produto

Começar a construir infraestrutura de dados ao nível do produto agora, mesmo antes de os requisitos do DPP entrarem em vigor. As empresas que já conseguem acompanhar materiais, emissões e métricas de circularidade ao nível do produto terão uma vantagem significativa quando os prazos do DPP chegarem.

Como a Dcycle ajuda as empresas de bens de consumo

A Dcycle disponibiliza uma plataforma integrada que conecta dados de sustentabilidade de toda a cadeia de valor num único sistema. Para as empresas de bens de consumo, isto significa:

  • Acompanhamento de carbono ao nível do produto: calcular e monitorizar emissões para produtos individuais, linhas de produtos ou portefólios completos, utilizando metodologias de ACV e fatores de emissão verificados.
  • Automação de dados da cadeia de abastecimento: ligar-se a sistemas de fornecedores, plataformas de aprovisionamento e prestadores de logística para automatizar a recolha de dados de Âmbito 3.
  • Reporte multi-framework: gerar relatórios CSRD/ESRS, GHG Protocol, CDP e Taxonomia UE a partir de um único conjunto de dados, sem reconciliação manual.
  • Métricas de embalagem e circularidade: acompanhar indicadores ESRS E5, incluindo peso de embalagem, conteúdo reciclado e reciclabilidade ao nível do SKU.
  • Documentação pronta para auditoria: manter um registo de auditoria completo com documentação de origem, metodologias de cálculo e histórico de versões para garantia externa.

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Perguntas frequentes

Quais são as principais fontes de emissão para as empresas de bens de consumo?

A maior fonte são tipicamente as emissões de Âmbito 3 provenientes de bens e serviços adquiridos, que podem representar entre 70 e 90 por cento do total das emissões. Isto inclui a extração de matérias-primas, o fabrico de componentes e os insumos agrícolas. As emissões de Âmbito 1 e 2 provenientes de fábricas próprias e energia adquirida representam geralmente uma parcela menor, mas são mais fáceis de controlar diretamente.

Como devem as empresas de bens de consumo lidar com o reporte de Âmbito 3?

Comece por mapear a cadeia de valor para identificar as categorias de Âmbito 3 mais materiais. Para a maioria das empresas de bens de consumo, estas incluem bens e serviços adquiridos (Categoria 1), transporte a montante (Categoria 4), utilização de produtos vendidos (Categoria 11) e tratamento no fim de vida (Categoria 12). Priorize a obtenção de dados primários dos seus maiores fornecedores e use bases de dados de fatores de emissão reconhecidas para os restantes.

Que atividades da Taxonomia UE são relevantes para os bens de consumo?

As atividades relevantes variam por subsetor, mas incluem habitualmente o fabrico de produtos energeticamente eficientes, a produção com energia renovável, as inovações de embalagem que apoiam os objetivos da economia circular e os investimentos em prevenção da poluição. As empresas devem avaliar as suas receitas, CapEx e OpEx em relação aos critérios de triagem técnica da Taxonomia e aos requisitos DNSH (Não Causar Dano Significativo).

O que é o Passaporte Digital de Produto e quando será aplicável?

O Passaporte Digital de Produto (DPP) é um registo digital normalizado que acompanha um produto ao longo do seu ciclo de vida, contendo dados sobre materiais, pegada de carbono, reparabilidade e reciclabilidade. O ESPR introduz os requisitos do DPP de forma progressiva, começando pelas categorias de produtos prioritárias, como baterias, têxteis e eletrónica. As empresas de bens de consumo devem começar a construir sistemas de dados ao nível do produto agora para estar prontas quando as suas categorias entrarem em âmbito.

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